
Ela não era revestida de azulejos, a água era turva e muitas vezes haviam filhotes de rã nadando. Foi numa piscina assim que o pequeno Tetsuo Okamoto começou a praticar natação em Marília, São Paulo. Como sofria de asma, seu pai havia recebido conselhos de que a natação seria boa para desenvolver os pulmões daquela criança franzina de sete anos e que tinha o apelido de Tachinha, devido ao corpo fininho e a cabeça grande.
Foi apenas aos 15 anos que conheceu uma piscina de verdade quando foi escalado para o time de natação mariliense. Os treinos ministrados pelo técnico Fausto Alonso eram realizados num clube de elite. Tetsuo viu nas competições uma chance de viajar e conhecer novos lugares.
Em 1949, o Brasil recebeu uma visita ilustre que mudaria a vida de Tetsuo. Um grupo de nadadores japoneses eram os mais novos heróis de um Japão que havia sido arrasado pelo Segunda Guerra, e estavam em tour pelo país para que os japoneses que aqui estavam também pudessem conhecê-los.
O feito desses heróis era algo impressionante. Convidados para participar de um campeonato americano de natação em Los Angeles, os japoneses simplesmente venceram em quase todas as distâncias no nado livre, tendo inclusive batido três recordes mundiais. E os destaques do time eram Shiro Hashizume e Hironoshin Furahashi, que nos EUA ganhou o apelido "The Flying Fish of Fujiyama". O Japão estava no topo da natação mundial.
Tetsuo teve a chance de conhecer de perto o time do Flying Fish, pois estava na condição de atleta brasileiro de natação. Acompanhou treinamentos e viu que eles chegavam a nadar 10.000 metros por dia. Algo inacreditável para quem estava acostumado a treinar 2.000 metros. "Mas se eles podiam eu também podia" era o pensamento de Tetsuo.
Em 1951 os treinos duros de Tetsuo deram resultados brilhantes. Dos jogos pan-americanos na Argentina, voltou com três medalhas: 2 de ouro (400 e 1500m) e 1 de prata (revezamento 4x200m). A prefeitura de Marília chegou a declarar feriado municipal. E pela primeira vez a chance de participar de uma Olimpíada apareceu. Chance que só se concretizaria no ano seguinte com a classificação de Okamoto para as Olimpíadas na Finlândia.
Quando chegou em Helsinque não se sentia preparado, um inverno rigoroso havia atingido Marília, o que prejudicou muito seus treinos na piscina. Iria competir em duas distâncias: 400m e 1500m. Nos 400 chegou a se classificar para a segunda fase mas acabou caindo logo depois. Sobrava apenas os 1500, sua prova preferida. Nadou como um louco, como ele mesmo disse, e conseguiu se classificar para a grande final com o quarto melhor tempo.
Mesmo com o bom desempenho durante as eliminatórias, ganhar uma medalha não seria uma tarefa fácil para Tetsuo. Compartilhando a piscina com ele estavam alguns dos velhos conhecidos do time do Flying Fish, Shiro Hashizume e Yasuo Kitamura, além dos americanos Ford Konno e James McLane que havia ganho 2 medalhas de ouro na Olimpíada anterior, inclusive a dos 1500 metros.
Mas Tetsuo não se intimidou durante a prova. Faltando 50 metros para o final ele ainda estava em quarto lugar e mesmo assim conseguiu dar uma arrancada para conquistar a medalha de bronze, a primeira medalha olímpica da natação brasileira. No podium uma situação inusitada: os três medalhistas eram nikkeis mas representavam países diferentes: em primeiro lugar estava o norte-americano Ford Konno, em segundo o japonês Shiro Hashizume e em terceiro o brasileiro Tetsuo Okamoto. E Marília estava pronta pra decretar um novo feriado.
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Inspiradora essa história! ;)
Gostei muito de que escreveu. Fui nadadora do Yara Club de Marília .Era também colega de classe do Tachinha. Formamos em 1947 , do curso ginasial, no Ginásio Estadual de Marília. Tenho até a foto dos formandos onde aparecemos, eu e Tachinha. No correr dos anos eu às vezes ainda o via. A ultima vez que o ví, foi no Clube Yara.Pedí a ele que nadasse um pouco para que pudesse ver aquele "fenomeno". Parecia um peixe deslizando pela água.Tenho muitas saudades daquele tempo, dos amigos nadadoes e do senhor Fausto Alonso.
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